
Pouco a pouco tudo perco
como num apertado cerco
que não se vai compadecer
que me ameaça enlouquecer
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Perdas constantes, coisas insignificantes
como finos rios de areia em grão
que se esvaem nas frestas de minha mão
em estranhas danças sombrias e desesperantes
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Cada qual delas ao partir
leva de mim um pouco
esperando me dissuadir
a viver como um louco
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É a debandada final
é a chegada da estação fria
do profícuo vazio sem igual
que ao horizonte luzidio inebria
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Fico como mãe de filhos dez,
que um a um vê partir, e,
agora, mais não faz que a tez
(outrora radiante) passar a franzir
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Como um torturado touro na arena
imploro até à derradeira estocada
com o público a aplaudir tal faena
regozijando-se barbaramente na bancada
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Tento ser forte, decidido, valente, e
ao desespero que deixam, desvalorizar,
adoptar um discurso fluido e coerente
não mais que a mim mesmo me mentalizar
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Mas cada vez mais ciente
estar grotescamente distante
de ser um possível auto-suficiente
para me tornar num reles repugnante
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LETRASALINHADAS