segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DOEU TANTO



E todo o teu ar
me ofereceste
tua luz
meu ser
teus olhos
meus guias
me ensinaram
a ver

-
Foste o mar
foste o vento
a estrada que
me deu alento
e não me
deixou parar

-
Tua vida
em mim
depositaste
nada em troca
pedistes
só a confiaste
tanto orgulho em mim
(eu em ti também)
nesse modo
de me apresentar
de me anunciar
teu benjamin

-
E sinto falta
tanta falta
e foi só hoje...

-
E quando eu precisar
onde te vou encontrar?
Como faço para te procurar
sem saber onde vais estar?
Ensinas-me onde devo olhar
para te voltar a mimar?

-
Bastou ter
de te perder
quanto mais pensar
em deixar
de te amar
de homenagear
e nem um unico dia
deixarei passar
sem de ti me lembrar

-
Viverás para sempre em mim.
-
LETRASALINHADAS

sábado, 23 de abril de 2011

SALVAÇÃO


Muita coisa mudou
ou pensando melhor
muita coisa voltou
a ser novamente pior
desde que acabou
esse grande amor

Voltou a rotina
a falta de magia
a eterna neblina
que anestesia
e que culmina
nesta triste apatia

Todos ficaram a ganhar
nesse final antecipado
sem sequer se adivinhar
nosso passado apaixonado

Quando para eles olho
sei que valeu a pena
correr de vez o ferrolho
dessa ultima cena
deixar cair o pano
sem haver ultimo acto
ganhando o quotidiano
a esse palco de teatro

Mas ainda que não te diga
ou te esteja sempre a chatear
que te chame apenas amiga
ou não corra para te mimar
a saudade ainda me fustiga
todos os dias ao acordar

Falta o sal, falta o cheiro
falta o toque, falta o olhar
falta o descanso do guerreiro
que sentia ao te abraçar

Todos os dias sem excepção
a cada respirar me fustigo
com essa enorme desilusão
de não te poder ter comigo

Mas uma coisa não me vão levar
esse meu eléctrico amarelo
não me vão poder roubar
porque para cada pesadelo
tenho-o a ele para me salvar.

LETRASALINHADAS

sábado, 4 de setembro de 2010

MARCHAR, MARCHAR, MARCHAR



Trabalhar
cozinhar
está na hora de deitar
para cedo acordar
dou em louco
que sufoco, dou em louco
já não consigo aguentar

Ver as montras
passear
espera aí para experimentar
esta, esta e aquela vou levar
dou em louco
que sufoco, dou em louco
já não consigo aguentar

Arranjar
para jantar
implorar
para conversar
mas acabo por me calar
dou em louco
que sufoco, dou em louco
já não consigo aguentar

Comprimidos
para tomar
e poder aguentar
até o dia terminar
dou em louco
que sufoco, dou em louco
já não consigo aguentar

Que fazes tu?
que estás a inventar
prefiro ser eu a arrumar
nunca sabes o lugar
vai, vai-te lá sentar
dou em louco
que sufoco, dou em louco
já não consigo aguentar

Acho que por este andar
nesta rua a marchar
acorrentado de par em par
sem poder desanuviar
ainda vou arrebentar,
ou então embriagar
que sufoco, dou em louco
e já não consigo aguentar

LETRASALINHADAS

sábado, 5 de junho de 2010

ANJO DA GUARDA


Minha ousadia
és alegria
meu pecado

Aconchegado
de esperança
sou criança

Minha saudade
de mim metade
minha aventura
de ternura

não esmorece
nem me esquece

Vieste tarde
tarde exististe
viesses cedo
cedo a mim
a mim pertences

És minha guarda
na vida parda
nesse tormento
fingimento
que enlouquece
e entardece

Como marujo
de ti eu fujo
rompimentos
aos sete ventos
que não são
senão

fingidas
despedidas

São como ensaios

Secreta flor
escondida dor
porto de abrigo
vou contigo
me curar
no desfolhar
desse calor


LETRASALINHADAS

quinta-feira, 25 de março de 2010

OIÇO VOZES

É tua É tua É tua
A culpa é tua
Sem perdão
Aldrabão!
É tua É tua É tua
A culpa é tua
Dela não
Tem razão!
É tua É tua É tua
A culpa é tua
Condenado
Está calado
É tua É tua É tua
A culpa é tua
Sem coração
Nem salvação
A culpa é tua
Dela não
Tem razão!
Fica absolvida
Segue a vida
Já tu não,
Vais para a prisão
A agua e pão
É tua É tua É tua
A culpa é tua
A culpa é tua
A culpa é tua
Calabouço
Guilhotina
Pró inferno
A culpa é tua
Só pode ser
Vais morrer
Vais arder
E merecer
É minha É minha É minha
A culpa é minha
Podem-me condenar
Despedaçar
Sem sobrar
Até acabar
Tua Tua Tua
Minha Minha Minha
-
LETRASALINHADAS

domingo, 31 de janeiro de 2010

DELIRIOS DA EMOÇÃO NO CORPO DA RAZÃO


Que não
que não pode ser
deixará de acontecer

Porque...

Somos de outro lugar
não temos nada a ver,
mas temos, temos
a quem pertencer
com quem temos de viver

Enfim...

Parecemos vencidos
deixaremos de querer
ficamos convencidos
(pelo menos até ver)

Mas...

Basta um cheiro,
um olhar,
um toque,
respirar,
um sentir
afagar
um ouvir
suspirar,
um beijo
avançar
um abraço
apertar

E depois...

Rendidos
avançamos,
aos sentidos
entregamos
a condução,
sem pensar
sem razão
só traição
sem pudor
no fervor
avassalador
desse
amor
-
LETRASALINHADAS

sábado, 3 de outubro de 2009

LONGE


Sinto falta porque sinto!
Não há porque justificar
Mais a mais quando em esforço
Me coíbo de por ti gritar
-
Sinto a falta porque sinto!

Sem nada haver a explicar
Tentando que não me falhe a voz
Quando lhes afirmo farto de te aturar
-
Sinto a falta porque sinto!

Porque haveria de negar?
Silenciosamente engulo em seco
Quando oiço alguém de ti a falar
-
Sinto a falta porque sinto!

Já não há volta que possa dar
Estão agora os relógios parados
Aguardando-te para o bater retomar
-
Sinto a falta porque sinto!

Como poderei isso ignorar?
Se nada me parece ser igual
Quando olho para o teu lugar
-
Sinto a falta porque sinto!

E dela a ninguém posso confessar
Nem mesmo quando ao almoço a meu lado
Decidem todos os dias te telefonar
-
Sinto a falta porque sinto!

E cada dia a faz aumentar
Qual pedaço de carne arrancada
Suspensa até ao teu voltar
-
Sinto a falta porque sinto!

Mas sei que quando o tempo passar
Quando termine o inevitável ciclo
Te irei de novo recuperar!
-
LETRASALINHADAS

sábado, 8 de agosto de 2009

"3" (TRÊS)



E chovia, chovia tanto que o asfalto parecia fumegar. Como cachos, grossos pingos batiam violentamente em tudo e nada parecia a salvo, nem da enxurrada nem do vento em rajadas e a fazer-se assobiar por entre todas as frestas e esquinas. A agua estendia-se agora por todo o lado como um lençol, subindo, galgando, arrastando tudo consigo ao seu passar e atenuando o relevo e as reentrâncias das bermas e passeios, porque tudo parecia já um enorme oceano, apenas salpicado de pequenas casas como barquitos a remos à deriva. Parecia impossível, parecia assustador, mas lindo, tão impossível e assustador, porém tão lindo, que nos deixava embriagados, nostálgicos e sem reacção. Eu, agachado, espreitava pela janela através das vidraças, mas com as persianas meio fechadas, e às escuras, em silêncio, porque assim me sentia mais seguro ou menos exposto à intempérie. E só quando a luz dos raios iluminava todo o exterior como se fosse dia, e se desenhavam em mim as sombras dos caixilhos reflectidos, anunciando o bater forte de mais um trovão, me permitia a mim próprio respirar, voltando a suster-me até ao rugido do próximo. Não se via vivalma, mas não fazia frio, ou, pelo menos, não o conseguia sentir. E continuava ali, sozinho, sem ninguém, e se eu tive tanta gente... mas perdi-os, perdi-os todos, um por um, sem dar conta, sem saber que os estava a desperdiçar, sem nada fazer, nem bem, nem mal, e isso foi fatal. Há quem falhe por errar, por má índole, por desprezo, por egoísmo, mas eu não, nem sequer me apercebi onde errei, se é que errei, apenas me sentei e esperei, e esperei, e esperei até que tudo se foi e nada nunca chegou. Decidi então meter-me a caminho, e sim, seria hoje, seria agora, seria já, e senti-me outra vez forte, vivo, audaz, decidido, impaciente, com o peito a estremecer, de novo a adrenalina a fervilhar, o coração a saltar, e tudo parecia agora voltar a fazer sentido, tudo se conjugava, tudo o que parecia disperso se voltava a encaixar, e apenas lamentava não o ter sabido antes, porque já lá estaria... e como eu tremia, meu Deus! Não levei bagagem, porque de nada me serviria lá, e viajei. Viajei durante 3 meses, 3 dias e 3 noites, mais 3 horas e 3 minutos e cheguei 3 segundos depois. Para me receber estavam 3 meus iguais, em 3 minhas distintas idades, que me beijaram 3 vezes, e, que com 3 chaves me decidiram presentear. Cada um deles os 3, estava junto a cada uma das 3 portas que poderia eu escolher abrir em 3 tentativas e depois, 3 decisões nessas 3 salas mudar por 3 vezes, e no fim, as 3 poder restaurar. Extasiado, por momentos pensei ser dono do meu destino, fazedor da minha própria história, tanto presente como...passada. Tudo poderia mudar, reconstruir, adquirir, baralhar, partir e voltar a dar, e até ensaiar. E entrei numa e noutra e noutra e noutra e voltava atrás, e passava à frente, e mais ali e menos aqui, num ritmo tão frenético quanto a velocidade a que a mim mesmo me obrigava a agir. Apaguei passagens, forcei outras existirem, suprimi desgostos, mudei amores, evitei tantas outras dores, e realcei alegrias e concretizei muitas e muitas fantasias. Agora sim, estava tudo a ficar exactamente como sempre gostaria que estivesse estado. E tudo o que não havia sabido construir numa vida, tinha conseguido concretizar num dia. Esgotei completamente todas as oportunidades, abdiquei de restaurar o que fosse, e fiquei finalmente saciado. Porém, quando estava a terminar, e, resultado das mudanças, numa enorme explosão de luz com infinitas fagulhas coloridas a cintilarem prolongadamente numa dança exótica diante dos meus olhos, aqueles 3 meus iguais fundiram-se num só, num novo e diferente meu igual, produto dos meus desejos, mas mais poderoso, mais abrangente, mais consistente, quase perfeito, sem metade das cicatrizes que me atormentavam os pensamentos e faziam regressar fantasmas, e com toda a pujança de um passado imaculado e construído a dedo. E era belo, irresistível, não sabia eu que também aterrador... Segui-o por entre vários corredores com enormes paredes de vidro que construíam um emaranhado de células, como gigantes aquários mas sem agua, e onde dentro de cada um se desenrolavam cenas passadas da minha vida. Por todo o lado direito dos corredores, as cenas reais e que facilmente eu reconhecia, pelo esquerdo, as que eu agora tinha adoptado como válidas mas que ainda que perfeitas, me soavam a estranhas. No fim de um desses corredores, existiam duas dessas células, mas vazias. Fez-me entrar na da direita, seguindo ele para a da esquerda. Fiquei a observá-lo. Entrou, mirou-se duas os três vezes numa das paredes como se fora ao espelho, abriu uma porta que dava para o exterior e saiu, tomando o meu lugar. Eu, procurei fazer o mesmo, mas surpreendentemente, a minha era totalmente fechada, e não tinha nenhuma porta, nem janela, nem sequer existia já a abertura por onde havia entrado. Estava fechada. Completamente selada. Estanque. Procurei sair durante horas a fio, gritei, pedi socorro, implorei, e chorei, berrei, amaldiçoei, vociferei, mas, de nada adiantou, até que caí exausto e me acomodei. Já desisti de chamar, e nem esperança tenho em sair. E aqui estou, preso, encurralado e condenado para todo o sempre a apreciar a vida do meu novo eu, que teima em passar consecutivamente, em frente, como num filme, na célula da esquerda onde ele entrou. E parece que sou feliz! Outra vez feliz! Muito feliz! Nessa nova vida que sorvo enquanto perco as feições e me sinto a derreter, nesta clausura.
-
LETRASALINHADAS

sábado, 13 de junho de 2009

CONVITE À VIAGEM PARA O DEPOIS DE AGORA


"Quem és?" Perguntaram
Não faço ideia,
respondi

-
"Junta-te a nós"
disseram
"vem connosco"
e eu com eles segui
-

Para onde vão?
perguntei
''Para depois de agora''
Afiançaram
-

''Viemos do ontem
para hoje, sem gostar
e sem querermos nada mudar,
não por estarmos bem
mas por falta de coragem
vamos para o depois de agora
avançar e iniciar
o quanto antes essa viagem''
-

''Lá já tudo isto passou
estará tudo resolvido
serei o que sou
sem o lamento de ter vivido
tudo o que teria sofrido
por tudo o que certamente mudou''
-

''Saltamos sofrimentos
ignoramos desilusões
evitamos escolher
que vida queremos viver
fugimos de tormentos
e não tomamos decisões''
-

Não percamos mais tempo
disse eu
aproveitemos este vento
e viajemos sem demora
para esse idílico depois de agora
-

"Mas depois de lá estar
não há volta a dar
e a vida adquirida
terá de ser vivida"
Disseram
-

Mas como pode ser?
questionei
eterna será a viagem
na busca dessa miragem
porque sempre que cheguemos
será presente,
e decididos continuaremos
pois na busca dessa glória
sem nunca ter essa vitória
de apanhar o depois de agora
-

"Tens razão, é melhor ficares
és séptico, racional, não és crente
pelo menos não o suficiente
para connosco andares
e deitas tudo a perder,
tudo o que poderias ter,
por não arriscares".
-

Fiquei a rir
depois a chorar,
castigo-me a pensar...
Será verdade???

-
LETRASALINHADAS

domingo, 26 de abril de 2009

ABSOLVIÇÃO


Espero que agora que partiste
e que na tranquila imensidão
da paz desse lugar eterno
onde nos consegues bem avaliar,
percebas que me vias triste
não por falta de bom senso ou razão
mas pela responsabilidade do inferno
em que se transformou aquele lugar
-
Tentei tudo prever
no intuito de te proteger
e de te puder entregar
fortes armas com que lutar,
mas, como poderia eu adivinhar
essa monstruosa falta de sorte
esse teu oculto definhar
essa tua causa de morte?
-
Se em alguma vez poderei
ter sido insensível ou injusto
e que me tenhas suportado só a custo
nesse meu papel de querubim do rei,
quer estejas no "meu" céu
ou na "tua" reencarnação
submeto-me a ti como réu
e imploro o teu perdão.
-
LETRASALINHADAS
-
Lembrei-me de ti...e decidi recuperá-lo, hoje, por ser hoje, fica melhor por aqui, e tu mereces cada linha, cada letra...
(Original de 02MAI2008)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ENFADONHA

Já te chamaram vadia
mas sei a verdade
e que dia após dia
comandas a minha vontade
-

Já te chamaram criança
mas tens apenas desejo
de nunca perderes a esperança
de te revigorares num beijo
-

Já te chamaram tonta
por acreditares no amor
e por estares sempre pronta
para te entregares com ardor
-

Já te chamaram maçadora
eu chamo-te alegria
dizem que és aborrecedora
prefiro-te achar fantasia
chamam-te faladora
respondo que és alquimia
-

Já te chamaram inocente
eu chamo-te tentação
dizem que és crente
prefiro achar-te emoção
chamam-te benevolente
respondo que és alucinação
-

E tanto gostas de criar
essa imagem ao teu redor
de julgarem não saberes pensar
de não teres qualquer valor
e escolhes sempre a cobardia
de não assumires inteligência
e preferes passar todo o dia
a fazer crer precisares de clemencia...
-

Raros afinal te conhecem
e todos te pensam conhecer
entregas-te só aos que merecem
ser donos do teu amanhecer
-

Mas quando por fim decides confiar
quando estás segura de te poder entregar
e revelas e partilhas esse teu infinito sonhar
arrastas tudo em turbilhão ao teu redor,
enquanto libertas o perfume da mais frágil flor
e incendeias tudo e todos com esse teu calor,
loucamente insaciável na procura do nosso amor

-
с днем рождения
-
LETRASALINHADAS

sexta-feira, 13 de março de 2009

DUELO


Eles lutam cá dentro
lutam até à exaustão
mas porque já não aguento
desisto de procurar solução
-
Depois quando menos espero
voltam ambos a se violentar
enquanto inerte desespero
para saber qual vai ganhar
-
Um fica deformado
de tanto se ver trair
o outro transtornado
por não conseguir decidir
-
Um não consegue ganhar
outro apenas não quer perder
e enquanto os oiço a lutar
continuo impávido a sofrer
-
Claro que ambos têm razão
querem para mim felicidade
mas fica impossível a comunhão
de conciliarem ambos essa vontade
-
E sei que não estou sozinho
sei que também em ti estão a lutar
e quanto mais juntamos caminho
mais os encorajamos a continuar
-
E saem gritos, saem horrores
nascem atritos, nascem temores
continuamos cada vez mais aflitos,
mas cada vez mais... avassaladores
-
Apenas porque tudo merece a pena...

-
LETRASALINHADAS

sábado, 14 de fevereiro de 2009

OS USURPADORES


O mundo é tão só um jogo viciante
com regras ditadas por fúteis juízes
que usam o poder de forma intolerante
escravizando-nos aos seus narizes
-
As decisões ruinosas por eles tomadas
num estado de total embriaguez assumida
mantêm de pé essas suas enormes fachadas
que ameaçam desmoronar com a nossa vida
-
Sem qualquer pingo de sensatez
ou por meros caprichos pessoais
tomam-nas por falta de lucidez
ou por as terem visto em jornais
-
E é assim que sem qualquer competência
sem bases criteriosas nem justificação
decidem com a maior falta de decência
aquilo que nos vão dar ou roubar da mão
-
Só lhes interessa conseguir manter
em escalada, o nível de riqueza amealhada
favorecendo também quem lhes aceite lamber
suas sujas botas de vil terra enlameada
-
Estamos já todos descrentes!
Assumam que no passado erraram,
e que sois totalmente incompetentes
indo de novo falhar onde já antes falharam
-
Liderança não é de todo intimidar
nem isso vos tornará capazes
porque ninguém vos vai respeitar
apenas por exibirem as vossas tenazes
-
E do alto dos seus luxuosos gabinetes
com os seus pajens tocando trompetes
no intervalo das muitas orgias e banquetes
soltam-nos as suas decrepitantes decisões
para assim nos roubarem os últimos tostões,
seus porcos imundos, seus ladrões,
seus infelizes cabrões!
-
LETRASALINHADAS

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

NUMA DESTAS NOITES


Acordei velho e vi tudo
acordei velho e tudo vi
vi tudo aquilo que vivi
e vi, sobretudo,
tudo aquilo que perdi
acordei velho e vi tudo
acordei velho e tudo vi
acordei velho longe de ti
e não mais adormeci.
-
LETRASALINHADAS

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

1º ANIVERSÁRIO


Começou como uma brincadeira, rabiscos num pequeno caderno de papel. Foi crescendo, tomou forma, ganhou consistência e merecia mais, bastante mais que o amorfo cadernito abandonado ao canto da secretária sempre cheia. Pouco a pouco os ''dos outros'' foram ganhando menos espaço nele, e ''os meus'' impuseram-se de forma natural, tornando o cadernito desadequado, ultrapassado, rudimentar, arcaico. Surgiu então a ideia de os ter em registo informático, porque não até na Internet? Um blogue! Isso mesmo, um blogue. E nasceu assim, convencido que seria apenas um espaço meu, só lido por mim, só ao meu alcance, ali abandonado e perdido em milhares e milhares de outros blogues e onde seguramente ninguém chegaria a entrar, muito menos a perder tempo a ler. Mas passou um ano, faz precisamente hoje um ano, um único ano, e mais de 4.000 (!) afinal deram com ele, e muitos até o leram, e bastantes até comentaram e dizem gostar, e alguns até o seguem, e me incentivam, e me elogiam... Continuo sem acreditar e a cada dia aumenta a surpresa e estupefacção. Muito obrigado a todos, por me fazerem começar a acreditar. E já agora, UM EXCELENTE 2009.

domingo, 14 de dezembro de 2008

COBARDIA FINAL - A ASCENSÃO


E só me consigo lembrar
daquela letra da musica dele
não a posso esquecer nem apagar
está como que entranhada na pele
-
E eu que já não tenho nada de nada
que estou nu, perdido, desnorteado, errante
caminho sozinho por uma grande estrada
direitinho a essa imensa luz dolorosa e asfixiante
atraído pelo canto de uma atroz pérfida mágica fada
que aos céus e infernos anuncia quase delirante
a minha própria auto infligida antecipada chegada
-
E chora quem de mim gosta
e tudo deixou de me pertencer
e não obtenho sequer resposta
daqueles que a custo me tentam esquecer
por estarem cegos de terem desperdiçado a aposta
e me fitam nos olhos mas parecem não me poder ver
-
E são só estilhaços
rios de lágrimas de amor
gente amiga aos abraços
e desmaios e muita dor
que ninguém esperava
que não era ainda hora
diz essa gente apavorada
essa gente que me adora
-
Mas há também os que estão em festa
nas moradas de quem me detesta
e que aliviados desabafam: ''foi desta!''
-
E só te consegues lembrar
daquela letra da musica dele
não a podes esquecer nem apagar
está como que entranhada na pele
-
"Porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto
qualquer coisa que te impede de te veres ao espelho nu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu"

-
Não queres crer, mas sentes-te finalmente seguro
sabes agora que foste precipitado em saltar o muro
e não precisas que mais nada te façam ver
concluis que afinal era, só era, possível viver
mas já é tarde e dás conta que te enganaste
quando por cobardia pegaste no revolver... e te mataste.
-
LETRASALINHADAS
* Entre aspas, excerto do poema "Balada dum estranho" de Jorge Palma

domingo, 16 de novembro de 2008

VENDE-SE


Quero sentir-me fora
fora de estar em mim
desencarcerando-me assim
donde a realidade mora
-
Quero sair do colete
colete tão apertado
que me mantém aprisionado
como num abominável corpete
-
Quero fugir desta carcaça
carcaça podre que me rodeia
sem saber o que me norteia
e lança à deriva minha barcaça
-
Quero-me de mim mesmo libertar
libertar da apertada amarra
desta pele que me agarra
e me condena a suplicar
-
Quero total independência
independência de ter de ser
totalmente fiel ao desprazer
de caminhar nesta demência
-
Quero nascer de novo
de novo tudo começar
até conseguir não mais lembrar
deste ser lamacento, deste estorvo
-
Quero de mim me esquecer
esquecer esta realidade
e abandonar a fatalidade
do que me obriga a sobreviver
-
Quero-me apenas vender, vender,
vender a quem pouco ou nada pagar
facilito, aceito permutas, ou aluguer,
basta que me aceitem por fim libertar!
-
LETRASALINHADAS

sábado, 18 de outubro de 2008

NA DEMÊNCIA DA MINHA SOLIDÃO


Adoro esta imagem. Olho-a horas a fio, vezes sem conta. Olho-a tanto que até me chego a sentir embrenhado nela. Alguém ali foi feliz, de certeza muito feliz, se bem que houveram tempos de tristeza também e morte no fim. Nem sempre foi assim como está agora, como sobrou, como lhe permitiram sobrar. Antes era radiante, bem pintada com cores vivas e berrantes, sem grades nem correntes, mas com um jardim tratado ao redor e cheio de flores, aliás, cheio de perfumadas flores garridas, e uma confortável cadeira de balanço e dois bancos corridos de três lugares cada, onde todos gostavam de se sentar a aproveitar o revigorante fresco do final do dia que sempre se seguia às tardes de insuportável calor, fazendo adivinhar noites de estupenda magia. Hesitei onde ficaria, Bolívia? Colômbia? Venezuela? Chile? Perú? Decerto na América, na América Latina, se bem que também uma perdida ilha grega lhe assentasse na perfeição, mas costumo-lhe ouvir vozes em tosco Espanhol ao redor, que entoam o que me parecem ser alegres musicas de Compay Segundo ou Ibrahim Ferrer, ao ritmo das guitarras e congas, e das gargalhadas estridentes por entre as danças dos mais novos que se revezam consoante o inicio e o final dos ininterruptos turnos de trabalho na fábrica de enrolar. Decididamente América Latina. Cuba. E costuma existir também uma jovem, maravilhosamente bela, de longos cabelos negros, de olhos bem abertos e expressivos, de seios redondos e cheios, meio destapados pelos habituais decotes pronunciados por onde escorrega até desaparecer um reluzente crucifixo, com roupas também elas coloridas, também elas floridas com saias até aos pés, bem largas e rodadas. Não sei porquê lembro-me sempre de Frida. Mas não é ela, não é Frida Kahlo quem ali habita, embora se assemelhe em muito na forma de vestir, nos padrões frutados com pequenos abacaxis e melancias vermelhas estampadas em vivos fundos verdes e amarelos, mas muitíssimo mais meiga e mais bela, e mais alta, e mais saudável e igualmente insinuante e desinibida. Vivia antes com o pai, nunca conheceu a mãe que faleceu ao dar à luz, e o pai, esse, sem nunca a molestar, nunca a perdoou e não evitava ceder todos os dias a afogar no rum a mágoa da irreparável perda. Baixo, gordo, de longo bigode de pontas arrebitadas, fez questão de a guardar, de a resguardar, de a esconder do mundo, da vida, do convívio e também por isso, nunca conheceu namorado. Ele adoeceu, e ela à sua cabeceira, noite e dia, até o perder, porque desistir há muito ele tinha, há vinte e quase um anos atrás. Depois um rapaz, que era médico, o médico do pai. Tal como eu, ele era meigo, muito meigo e extremamente atento e alto, mas ao invés, magro, seco, louro, e muito mais feliz, com uns penetrantes olhos castanhos claros e sempre disponível. Difícil foi resistir-lhe pela estonteante beleza dela. Pediu-a em casamento, casaram, e mudaram-se para esta casa, e foi o inicio. Ela, ainda que tenha aceite casar mais por necessidade, mais por comodidade, mais por segurança, mais por medo de ficar sozinha no mundo, do que por amor que nem sequer desconfiava poder existir, descobriu logo na primeira noite que o amava loucamente e que nada nunca mais seria igual na sua vida. E ficaram juntos, juntos nesta casa, sempre nesta casa, sempre felizes, sempre rodeados de festas e de convívio e de amigos. Sei que tiveram filhos, porque uma ou outra vez ouvi os seus tímidos risos, ou os seus choros a meio da noite, mas, estranhamente, nunca os vi, nem sequer os consigo imaginar, ainda que seguramente existam, até porque têm mesmo de existir. A casa essa, era vê-la radiante de dia, elegante de noite, sempre arranjada, sempre idolatrada e sempre invejada, não como agora que ninguém perde tempo a olhar, e sempre que podem a evitam. Mas parece que dos vinte anos de folia e alegria nela passados ninguém se lembra, nem mesmo os "habitués" dos bancos corridos... Antes a preferem recordar por aquela fatídica semana, uma única semana, com o renegar da casa em catadupa por todos, com o seu fecho a grades e cadeados, coincidente com o seu eterno amaldiçoamento. Abandonada por todos, porque, ele e ela já não estavam, também por ele, porque mesmo médico não o soube evitar, e por ela, porque morreu, morreu ainda jovem e capaz, nos braços dele, com o mesmo brilho no olhar com que o presenteou naquela longínqua primeira noite e que sempre soube sem esforço conservar. E nunca mais da casa se ouviu falar, pelo menos não até eu nela conseguir de novo penetrar com o meu persistente olhar. E seduz-me, e atrai-me, e atrai-me mesmo muito, e volta a seduzir-me antes de me atrair de novo...
Terá sido mesmo assim???

sábado, 20 de setembro de 2008

DESTINO


Não há como poder fugir
do destino que tens traçado
seja que porta escolhas abrir
vais sempre dar ao mesmo lado
-
Mas tu tentas furar, romper
em vão tentas espernear
abominas pensar em ceder
preferes mudar que acatar
-
E corres, corres, corres meio mundo
tanto trocas de vida e tentas melhorar
como tudo desperdiças e bates no fundo,
e eles apregoam que nunca o vais alterar
-
Aconselham-te a desistir de lutar
contra o que te foi reservado
que só tens mesmo é de aceitar
e viveres com o que tens, abnegado.
Que mesmo já antes de se nascer
está decidido e programado
que futuro vais afinal ter,
se um alegre se um triste fado.
-
Tretas, tudo puras tretas!!
Sei que tenho palavra activa,
que não somos meras marionetas
e que comandamos nós a nossa vida,
nem que apenas como meros poetas
-
E não me vão nunca reduzir
a ser um zombie mandado
que ao invés de exigir decidir
parece até apenas preferir
ser simplesmente comandado.
-
LETRASALINHADAS

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

NESSA ESPIRAL DE MIM PRÓPRIO


Recomeçou...
-
Passam infinitas memórias,
em turbilhões constantes
tanto de dias de glórias
como de horas desesperantes
-
Velhos arqui-inimigos temores
desfilam atabalhoadamente agora
trazendo de novo à tona as dores
que pensava enterradas outrora
-
Intempestivas antigas paixões
começam em mim a chover
num corrupio de emoções
que me consegue comover
-
Chegam sonhos de criança
jamais por mim realizados
que aparecem na esperança
de poderem ser dissipados
-
Aterram desejos amados,
recentes paixões e amores,
desilusões e desgostos apagados
num tão grande mar de suores...
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Problemas profissionais
familiares preocupações
desavenças conjugais
nessas eternas discussões...
-
Assaltam-me de forma frequente
ideias para algo de novo fazer
sempre em realização eloquente
tanto de trabalho como de lazer
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Revejo o dia em revista convicto
de onde falhei ou do que me orgulhar,
num julgamento sumário com o veredicto
de tudo o que terei em mim de modificar
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Tudo parece querer exigir passar
num cérebro cansado e desgastado
entre o frágil dormitar e o acordar
que começa logo que me sinto deitado
-
Infinita estranha movimentada dança
nesse enlouquecedor entrelaçar
dessa estúpida agoniante aliança
entre o adormecer e o despertar
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tic tac tic tac tic tic tac
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(Não há meio do sono vir
tão tarde e eu acordado
não vou conseguir dormir
mesmo depois de há tanto deitado)
-
tic tac tic tac tic tic tac
-
(Acho que só vou adormecer
quando começar a amanhecer)
-
tic tac tic tac tic tic tac
-
(Já perdi a esperança de descansar
desisto! vou-me mesmo é...levantar)
-
Acabou...
-
Recomeçou...
Acabou...
Recomeçou...
Acabou...
Recomeçou...
Acabou...
Recomeçou...
-
LETRASALINHADAS

domingo, 27 de julho de 2008

CHEGADA AO FUTURO


Será que ainda consegues lembrar
de teres essa enorme esperança
de por magia como homem acordar
e não mais seres apenas uma criança?
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E de te olhares horas ao espelho
a observar esse retrato perfeito,
não de um pequeno tímido fedelho,
mas de um belo e exemplar homem feito?
-
E com essa linda fictícia imagem
apenas existente na tua imaginação
conseguires por fim ganhar coragem
para voltares à realidade de então
-
O futuro era, decididamente, o caminho,
que apenas terias de cumprir com saber
e mesmo que o tivesses de enfrentar sozinho
todos os problemas ele saberia por ti resolver...
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Levantadas agora as brumas desse reflexo
não sei se esse miúdo (se me pudesse ver)
ficaria desiludido, ou no mínimo perplexo,
se muito orgulhoso por em mim se reconhecer.
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LETRASALINHADAS

Ilustração: ''Reflexo'' da autoria de http://www.tintasefeltro.blogspot.com/

quinta-feira, 3 de julho de 2008

OS "ROBOTS"


Mesmo quem aos outros convicto diz
espalhando aos quatro ventos
de peito aberto, "sou feliz!"
não se afogará em escondidos lamentos?
-
Mesmo quem a todos garante
que sente pura felicidade
não o fará mesmo perante
real existente adversidade,
apenas a admitindo sentir
a todos os tristes demais
para assim lhes encobrir
que a sentirá jamais?
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Saberão realmente eles bem
o seu toque, o seu sabor
a magia que decerto detém
o seu estonteante embriagado odor?
-
Ou serão apenas mentirosos,
falsos, meros fingidores,
astuciosos, ardilosos
adúlteros deturpadores,
que pegam nas suas vidas vazias
cheias de esquinas sombrias
e fazem coincidir os seus sonhos
com esses seus mundos medonhos
só para puderem no fim dizer
que têm a vida tal qual a condizer
com os desejos sempre sonhados
em todos os aspectos ambicionados?
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Decerto na ordem errada
a viver de e para nada,
por não terem a coragem
de assumir essa viagem
pela infeliz frustração
de uma vida de desilusão
vazia e fracassada...
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Enganam-se a eles primeiro
acenam com estatutos e dinheiro
para os outros demais, vencidos,
os admirarem e idolatrarem, convencidos...
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Ainda prefiro mil vezes mais admitir
nunca ter conseguido perto de feliz ser
do que ter de passar o tempo a mentir
e transformar em pandega o meu sofrer.
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Desistir de um sonho sempre almejado
para não enfrentar não o ter alcançado?
Não...recuso-me ser "robot"...
Obrigado!
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LETRASALINHADAS

domingo, 8 de junho de 2008

DESVIO MÓRBIDO DA RAZÃO


Infindas planícies verdejantes
salpicadas com papoilas admiráveis,
e afoitas cearas intermináveis
com desmedidas espigas pujantes
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Tremendo céu nocturno imponente
admirado do cume da montanha alta
trazendo pedidos de desejo à ribalta
por se avistar uma estrela cadente
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Imenso cristalino azul que meus olhos estonteantes
têm o prazer de conseguir contemplar
nessa mágica falésia virada para o mar
com imaginárias carpas em saltos delirantes
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Magnifico pôr-do-sol ao entardecer
desaparecendo no horizonte a sua luz
como que num prenúncio ao anoitecer
que a todos os amantes por certo seduz
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Tudo isto consigo sentir e imaginar
num pequeno espaço inconfortável,
fechado, sem janelas onde espreitar,
apenas de frio azulejo desconfortável
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Bastando unicamente comigo estares
ambos de peitos colados e ofegantes
em suaves caprichosos carinhos constantes
nessa louca aptidão que tens em me beijares
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LETRASALINHADAS